O que é inteligência emocional e maturidade emocional

Seguramente conheces homens que sabem, na teoria, exatamente como deviam reagir numa determinada discussão, e ainda assim repetem os mesmos erros sempre que a pressão sobe.
Isso não é falta de inteligência, é a distância entre saber e aplicar, é precisamente aí que a inteligência emocional e a maturidade emocional se separam.

O que é inteligência emocional?

Homem a fazer uma pausa antes de reagir a uma situação emocional
Inteligência emocional – A pausa entre sentir e reagir é onde a inteligência emocional realmente acontece

O que é inteligência emocional?
Inteligência emocional é a capacidade de perceber, compreender e gerir as próprias emoções e as dos outros, e usar essa leitura de emoções para decidir melhor o que fazer a seguir.
O termo entrou na psicologia académica em 1990, não nasceu a partir de um discurso motivacional, e desde então tem sido tratado como uma capacidade que se pode desenvolver, não como sendo um dom fixo de nascença.

Até 1990, a “inteligência” era quase sinónimo de raciocínio lógico e verbal, o tipo de coisa que um teste de QI mede. Dois investigadores, Peter Salovey e John Mayer, defenderam que ler emoções com precisão, as tuas e as dos outros, também é processamento de informação, com regras próprias e treináveis.
Para perceberes, vamos comparar a um sistema de navegação de um carro:
– O sistema de navegação do carro não conduz por ti, só te diz onde estás e o que vem a seguir, para decidires o percurso com mais informação. A inteligência emocional funciona de forma semelhante com as emoções, não decide por ti, dá-te a leitura de que precisas para decidir bem.

🔬 Evidência científica:
O artigo que fundou este campo académico continua a ser a referência citada em praticamente toda a investigação posterior sobre o tema, incluindo os modelos que ficaram depois mais conhecidos do grande público.
Fonte: Salovey & Mayer (1990), Imagination, Cognition, and Personality | artigo teórico fundador do campo, não é um ensaio clínico com amostra, é o enquadramento conceptual sobre o qual assenta a investigação empírica seguinte

Os 4 pilares da inteligência emocional

O modelo mais usado atualmente divide a inteligência emocional em 4 pilares:
1- autoconsciência (reconhecer o que sentes no momento em que sentes),
2- autogestão (não deixar essa emoção decidir por ti),
3- consciência social (perceber o que se passa com quem tens à frente),
4- gestão de relações (agir de forma a fortalecer a relação, não a desgastar).

Os dois primeiros dependem só de ti.
Os dois últimos só entram em jogo quando há outra pessoa envolvida.
É por isso que conheces gente com autoconsciência forte (sabe perfeitamente que está irritada) mas autogestão fraca (mesmo assim descarrega essa irritação em quem está por perto).
São competências independentes, e é normal seres forte numa e fraco noutra.

🔬 Evidência científica:
Um estudo aplicado a quase 600 gestores e profissionais confirmou, com dados reais e não só com teoria, que estas competências se agrupam de facto nestes 4 domínios distintos, e não numa massa única indiferenciada.
Fonte: Boyatzis, Goleman & Rhee (2000) | n ≈ 600 gestores e profissionais | estudo de validação de competências por questionário

Se tiveres de escolher um pilar para trabalhar primeiro, escolhe a autogestão (autocontrolo emocional, não deixar essa emoção decidir por ti) porque costuma trazer a mudança mais visível no teu dia a dia, e ainda porque é o único dos quatro pilares que as outras pessoas vêm diretamente, sem tu precisares explicar. Para a tua vida, escolhe teres autocontrolo emocional, verás que a tua vida melhora.

O que é maturidade emocional, e em que difere da inteligência emocional?

Homem a manter o controlo emocional numa situação de pressão real, mostrando ter maturidade emocional
‘A maturidade emocional aparece exactamente quando o dia não corre bem’

O que é maturidade emocional? Em que difere da inteligência emocional?
Maturidade emocional é aplicar essa capacidade de forma consistente, sob pressão real, ao longo do tempo, não só quando o dia corre bem e é fácil manter a calma.
Podes saber perfeitamente, de forma racional, que devias respirar fundo antes de responder. A maturidade é fazê-lo mesmo cansado, provocado ou com pressa, e repeti-lo, não só uma vez quando estás bem-disposto. Resumindo: ter autocontrolo emocional consciente.

Vale a pena ser bem rigoroso aqui:
Ao contrário da inteligência emocional, que tem testes de desempenho estandardizados, “maturidade emocional” não tem um teste único, universalmente aceite pela comunidade científica. O que existe, estudado com seriedade, é a distinção entre inteligência emocional de habilidade (medida por testes de desempenho, mais próxima da capacidade em bruto) e inteligência emocional de traço (auto-reportada, mais estável no tempo, mais próxima do que no dia a dia chamamos de maturidade).

🔬 Evidência científica:
Dois estudos, com amostras separadas de 227 e 166 pessoas, confirmaram que esta componente mais estável e comportamental é estatisticamente distinta da componente medida por testes de desempenho puro, o que sustenta que capacidade e aplicação consistente não são a mesma variável psicológica.
Fonte: Petrides & Furnham (2001), European Journal of Personality | n = 227 (estudo 1) e n = 166 (estudo 2) | estudos psicométricos de validação

Um teste simples, sem nenhum questionário:
Pensa na última vez que reagiste mal.
Sabias, no momento, que havia uma forma melhor de reagir? Se sim, o problema não é falta de inteligência emocional, é a lacuna entre saber e aplicar.
É exatamente essa lacuna que a secção seguinte vai ajudar a fechar.

Como desenvolver inteligência emocional no dia a dia?

A parte boa de desenvolver inteligência emocional no dia a dia, confirmada por investigação séria e não só por livros de auto-ajuda, é que a inteligência emocional melhora com a prática deliberada, e o ganho proveniente desse aprendizado não desaparece assim que deixas de prestar atenção ao processo.

Três práticas concretas para começares a ter autocontrolo emocional, sem precisares de estar a mudar tudo de uma vez:
1º- Atribui um nome à emoção antes de reagir. Exemplo: troca “estou mal” por “estou frustrado porque isto devia ter corrido de outra forma” já muda o que acontece a seguir.
2º- Cria intencionalmente, uma pausa mínima, ainda que seja de poucos segundos, entre o sentir e o responder, sobretudo em conversas mais tensas.
3º- Pergunta diretamente à outra pessoa como interpretou a situação, em vez de partires do princípio que a tua leitura é a única correta.

🔬 Evidência científica:
Uma análise conjunta de 24 estudos distintos, com quase 2.000 participantes no total, encontrou uma melhoria moderada e consistente na inteligência emocional após programas de treino, mantida mesmo em avaliações feitas semanas depois, não só logo a seguir à intervenção.
Fonte: Hodzic et al. (2018), Emotion Review | 24 estudos, 28 amostras, N ≈ 1.986 | meta-análise multinível

Escolhe uma dessas 3 práticas para esta semana, não as três em simultâneo.
Segue a mesma lógica de qualquer treino físico: consistência numa técnica bate sempre intensidade dispersa por várias ao mesmo tempo.
Se procuras trabalhar a tua disciplina e consistência de forma mais alargada, lê este artigo:
🔹Procrastinação aos 40: o que é e porque surge?

Quais sinais mostram falta de maturidade emocional (imaturidade emocional) num homem?

Dois homens numa conversa sobre emoções e vulnerabilidade e respetiva imaturidade emocional.
‘Falar sobre o que sentes não é fraqueza, é treino’

Sinais de imaturidade emocional num homem:
– dificuldade em nomear sentimentos além de “zangado” ou “bem”,
– tendência a culpar sempre a situação ou a outra pessoa em vez de rever a própria reacção,
– desconforto genuíno perante conversas sobre vulnerabilidade.
Nenhum destes sinais é falha de caráter. Na maioria dos casos, é padrão aprendido, não uma escolha consciente.

Este padrão de imaturidade emocional tem estudo próprio:
Alguns homens desenvolvem, por socialização desde a infância, dificuldade real em identificar e verbalizar emoções ligadas a vulnerabilidade, como o medo, a tristeza ou a necessidade de ajuda, enquanto a raiva continua plenamente permitida.
Não nasce contigo, reforça-se ao longo dos anos por não seres corrigido quando reprimes, e por seres corrigido quando expressas o lado mais vulnerável.
Se este tema te tocar de forma mais concreta, o artigo sobre alexitimia e bloqueio emocional aprofunda precisamente este mecanismo.

🔬 Evidência científica:
Este padrão, associado à socialização masculina tradicional, foi validado como mensurável através de um instrumento próprio, confirmando que a dificuldade em nomear emoções de vulnerabilidade é sistemática em muitos homens, não um traço isolado de personalidade.
Fonte: Levant et al. (2006), Psychology of Men and Masculinity | validação de escala com amostra de homens adultos | estudo de validação psicométrica

Reconheceres que tens imaturidade emocional é o primeiro passo.
Um exercício simples:
Uma vez por dia, dá um nome a uma emoção que sentiste, mesmo que só faça sentido para ti próprio, sem partilhares com ninguém.
Isto irá reconstruir, pouco a pouco, o vocabulário emocional que a socialização pode ter deixado por desenvolver.
Se a irritabilidade e o stress crónico forem sintomas no teu dia a dia, aproveita para ler o artigo sobre burnout e stress crónico que complementa este tema pelo lado fisiológico.

💬 Para refletir e interiorizar:

📌 Inteligência emocional é saber ler a emoção, com precisão, no momento em que ela acontece.

📌 Maturidade emocional é aplicar essa leitura de forma consistente, mesmo sob pressão real.

📌 A distância entre as duas não é falha de caráter, é treino por fazer.

🧭 Na última situação em que reagiste mal, sabias no momento que havia uma forma melhor? Se sim, já sabes por onde começar.

Fontes científicas:

  1. Salovey, P., & Mayer, J. D. (1990). Emotional Intelligence. Imagination, Cognition, and Personality, 9(3), 185-211.
  2. Boyatzis, R. E., Goleman, D., & Rhee, K. (2000). Clustering competence in emotional intelligence.
  3. Petrides, K. V., & Furnham, A. (2001). Trait emotional intelligence. European Journal of Personality, 15, 425-448.
  4. Hodzic, S., Scharfen, J., Ripoll, P., Holling, H., & Zenasni, F. (2018). How Efficient Are Emotional Intelligence Trainings: A Meta-Analysis. Emotion Review, 10(2), 138-148.
  5. Levant, R. F., Good, G. E., Cook, S., O’Neil, J., Smalley, K. B., Owen, K. A., & Richmond, K. (2006). Validation of the Normative Male Alexithymia Scale. Psychology of Men and Masculinity, 7, 212-224.

⚠️ Aviso Importante: este artigo é informativo e não substitui nenhuma consulta médica.
Se sentires tristeza persistente, desesperança ou perda de interesse generalizada por mais de duas semanas, procura apoio de um profissional de saúde mental.
Consulta sempre a nossa Isenção de Responsabilidade Médica para mais informação.

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