Perder 24 quilos depois dos 40: a história real de Bruno Silva


Perder 24 quilos depois dos 40 anos é o ponto de partida desta história real, contada por Bruno Silva na primeira pessoa para o Dignidade Masculina:

Aos 44, o corpo deixou de ser desculpa.

Há uma idade em que um homem percebe que já não pode continuar a negociar consigo próprio.

A minha chegou aos 44 anos.

Não foi quando subi à balança e vi 104 quilos. Esse número já era antigo quando finalmente lhe prestei atenção. O problema não começou nos 104. Começou muito antes, nas pequenas concessões que ninguém vê e que, isoladamente, parecem não ter importância.

Um jantar que não devia acontecer.

Um treino que fica para amanhã.

Uma noite mal dormida.

Mais uma semana sem disciplina.

A promessa de que segunda-feira tudo mudaria.

Depois outra segunda-feira.

E outra.

É assim que muitas coisas importantes se perdem. Não com uma grande decisão errada, mas com centenas de pequenas decisões que parecem insignificantes no momento em que as tomamos.

Até que um dia olhamos para trás e percebemos que o insignificante se tornou a nossa vida.

Foi isso que aconteceu comigo.

Cheguei aos 104 quilos.

Bruno Silva, antes de perder 24 quilos depois dos 40 anos. Antes da transformação física, com 104 quilos.
“Bruno Silva, antes da transformação”

Mas, olhando hoje para trás, sei que o número na balança era apenas o sintoma. Havia qualquer coisa mais profunda a acontecer.

Eu estava a afastar-me de mim próprio.

E talvez essa seja uma das coisas sobre as quais nós, homens, menos gostamos de falar.

Falamos de carreira. De dinheiro. De negócios. De carros. De conquistas. Falamos de tudo aquilo que podemos medir e mostrar.

É mais difícil dizer:

“Não estou bem comigo.”

Porque fomos educados para resolver.

Para aguentar.

Para não parar.

Para continuar.

E continuamos.

Mesmo quando já não estamos bem.

Eu continuava a trabalhar. Continuava a cumprir responsabilidades. Continuava a ser pai. Continuava a tomar decisões. Por fora, a máquina funcionava.

Mas havia uma diferença entre funcionar e estar vivo da maneira como queremos.

E eu sabia disso.

Sabia quando me olhava ao espelho.

Sabia quando subia umas escadas.

Sabia quando vestia determinadas roupas.

Sabia, sobretudo, quando ficava sozinho.

O homem de 104 quilos não era preguiçoso. Não era fraco. Não era menos homem.

Era simplesmente um homem que, durante demasiado tempo, tinha colocado tudo à frente de si próprio.

Até que chegou o momento em que já não era possível continuar a fingir que isso não tinha um preço.

Aos 44 anos, também seria fácil culpar a idade.

É uma excelente desculpa.

A idade explica muita coisa e, por isso mesmo, pode tornar-se uma armadilha.

O metabolismo muda.

O corpo recupera mais devagar.

O trabalho ocupa mais tempo.

Temos mais responsabilidades.

Menos noites livres.

Menos margem para improvisar.

Tudo isso é verdade.

Mas existe outra verdade, muito menos confortável:

aos 44 anos já sabemos perfeitamente quem somos e aquilo que estamos a fazer.

Já não podemos atribuir tudo à falta de experiência.

Eu sabia.

E, quando finalmente aceitei isso, alguma coisa mudou.

Não encontrei motivação.

Encontrei responsabilidade.

Foi uma diferença decisiva.

Porque a motivação é bonita, mas pouco fiável.

Aparece quando estamos inspirados e desaparece precisamente quando mais precisamos dela.

A disciplina é outra coisa.

A disciplina não pergunta se nos apetece.

Apenas pergunta se vamos cumprir.

E comecei a cumprir.

Treinei.

Comi melhor.

Dormi melhor.

Repeti.

E repeti.

E repeti.

Não houve música épica.

Não houve transformação de um dia para o outro.

Houve dias em que me senti forte e dias em que preferia não ter saído de casa.

Houve dias em que o treino correu bem e outros em que simplesmente apareci e fiz o que tinha de fazer.

Mas comecei a perceber que cada vez que cumpria uma promessa feita a mim próprio acontecia algo que não aparecia na balança.

Eu recuperava confiança.

Não confiança no sentido superficial de me sentir melhor com o meu corpo.

Uma coisa mais profunda.

Comecei a voltar a acreditar na minha própria palavra.

E talvez seja isso que perdemos primeiro quando passamos demasiado tempo a falhar connosco.

Não perdemos apenas condição física.

Perdemos autoridade sobre nós próprios.

Dizemos “amanhã”.

E não fazemos.

Dizemos “segunda-feira”.

E não fazemos.

Dizemos “desta vez é a sério”.

E voltamos ao mesmo.

Até deixarmos de acreditar no homem que fala.

Foi essa confiança que precisei de reconstruir.

O corpo veio depois.

Os 104 tornaram-se 100.

Depois 95.

O número foi descendo.

Mas aquilo que realmente subia era outra coisa.

A minha exigência comigo próprio.

A minha energia.

A minha clareza.

O respeito que tinha por mim.

Hoje, aos 44 anos, peso cerca de 80 quilos.

Bruno Silva depois da transformação física, aos 44 anos, com 80 quilos
“Bruno Silva, hoje, depois de perder 24 quilos.”

Se alguém me perguntar o que sinto quando olho para o meu corpo, a resposta talvez surpreenda.

Não sinto que tenha vencido uma batalha contra ele.

Sinto que fiz finalmente as pazes com ele.

Durante demasiado tempo tratei o corpo como uma coisa que tinha de obedecer às minhas vontades.

Hoje vejo-o de outra forma.

É a casa onde vou viver o resto da minha vida.

E quero que seja uma casa onde me sinta bem.

Por isso já não treino para compensar aquilo que comi.

Não treino para castigar excessos.

Não treino sequer para parecer mais jovem.

Treino porque ainda tenho coisas para fazer.

Tenho um filho para acompanhar.

Tenho trabalho para construir.

Tenho projetos.

Tenho objetivos.

Tenho uma vida que não terminou aos 44, pelo contrário.

Talvez esteja finalmente a começar a ser vivida com a consciência necessária.

Existe uma ideia particularmente perigosa entre homens: a de que cuidar de nós próprios é uma forma de vaidade.

Não é.

Cuidar do corpo não é vaidade quando percebemos que o corpo é o instrumento através do qual cumprimos todas as nossas responsabilidades.

Cuidar da cabeça não é fragilidade.

Dormir não é preguiça.

Treinar não é narcisismo.

Comer bem não é obsessão.

E reconhecer que precisamos de mudar não é admitir derrota.

É assumir comando.

Talvez seja essa a palavra que melhor define aquilo que aconteceu comigo.

Comando.

Não sobre os outros.

Sobre mim.

Hoje sei que não controlo tudo.

Nunca controlarei.

Não controlo o tempo.

Não controlo os problemas.

Não controlo aquilo que os outros pensam.

Não controlo aquilo que a vida vai colocar no meu caminho.

Mas posso controlar a forma como apareço perante ela.

Posso decidir se apareço cansado ou preparado.

Se apareço a fugir ou a enfrentar.

Se apareço como alguém que desistiu de si ou como alguém que ainda tem coisas para conquistar.

Aos 44 anos, percebi também que envelhecer não é necessariamente perder.

Há coisas que só conseguimos ganhar com o tempo.

Perspetiva.

Consciência.

Experiência.

E a capacidade de distinguir aquilo que realmente importa daquilo que apenas parece importante.

Aos 20 queria provar coisas.

Aos 30 queria construir coisas.

Aos 40 comecei a perceber que também precisava de construir o homem que queria levar comigo para o resto da viagem.

Hoje, quando vejo fotografias minhas com 104 quilos, não sinto vergonha.

Sinto gratidão.

Aquele homem não sabia ainda como sair dali.

Mas, de alguma maneira, encontrou o caminho.

E talvez seja essa a parte que uma fotografia de “antes e depois” nunca conseguirá contar.

A fotografia mostra dois corpos.

Eu vejo duas versões do mesmo homem.

Entre elas existem 24 quilos.

Mas existem também centenas de manhãs difíceis, treinos que ninguém viu, escolhas que ninguém aplaudiu, noites em que foi mais fácil desistir e dias em que simplesmente decidi continuar.

Foi aí que aconteceu a verdadeira transformação.

Não quando a balança marcou 80.

Mas quando voltei a acreditar que aquilo que digo a mim próprio importa.

Hoje não procuro ser o homem que era aos 20.

Nem quero.

Quero ser melhor do que fui aos 40.

Mais forte, não apenas fisicamente.

Mais disciplinado.

Mais consciente.

Mais presente.

Mais dono das minhas escolhas.

E talvez seja isso envelhecer bem.

Não tentar recuperar quem fomos.

É ter coragem para descobrir quem ainda podemos ser.

Aos 44 anos, perdi 24 quilos.

Mas essa é apenas a parte da história que cabe numa balança.

A parte que realmente importa não se mede.

Porque, algures entre os 104 e os 80, não encontrei apenas um corpo diferente.

Encontrei novamente o homem que tinha deixado para trás.

✍️ Autor: Bruno Silva
Instagram: bruno.silva23__

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